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Por uma ética da arquitetura [O Estado de S. Paulo / Online – 03/07/2013 pág: Online ]

03/07/2013

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,por-uma-etica-da-arquitetura,1049660,0.htm

 

Por uma ética da arquitetura 

O Estado de S. Paulo – SP – CULTURA – 03/07/2013

ANTONIO GONÇALVES FILHO – O Estado de S.PauloA Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa hoje, será com certeza a mais politizada das edições – e isso não só por causa das manifestações públicas, mas pelo engajamento de alguns convidados. Para equilibrar a balança, amanhã a Flip discute estética. A festa de Paraty vai receber dois grandes críticos, um de arte, o inglês T.J. Clark, para falar de Picasso, e um de arquitetura, o norte-americano Paul Goldberger, ganhador do prêmio Pulitzer pelo conjunto da obra como crítico da revista The New Yorker. 

 

Goldberger mudou para a revista Vanity Fair no ano passado. Em entrevista ao Estado, por telefone, do Rio, o crítico fala também de política, embora de forma indireta, pintando um quadro futuro do que poderá acontecer à arquitetura num mundo ameaçado pela recessão. O foco da conversa foi seu ótimo livro A Relevância da Arquitetura, lançado aqui pela editoraBei Comunicação.

Vivemos uma crise política no Brasil que, se duradoura, poderá levar o País a uma recessão. Quais seriam os efeitos dessa recessão na arquitetura, considerando o exemplo do que aconteceu nos EUA depois da crise de 2008?

Arquitetura é sempre um produto da situação econômica, pois a construção civil é a primeira atividade a parar quando um país entra em crise ou a economia vai mal. Quando a construção é finalmente retomada, pensa-se de uma maneira menos ambiciosa e o resultado natural é quase sempre uma inibição criativa ditada pelas limitações. Diria que os arquitetos ficam menos criativos, mais conservadores. No entanto, uma certa pressão econômica pode frear projetos megalomaníacos, exigindo maior imaginação dos arquitetos. Menos com mais, para resumir a coisa a uma máxima minimalista.

O computador, a alta tecnologia, ajudam os arquitetos?

Em alguns casos, sim. Diria que os projetos de Frank Gehry seriam impossíveis sem o uso do computador. Mas ele serve basicamente para facilitar a construção de edificações complexas. É apenas uma ferramenta. Não substitui o arquiteto.

O senhor citou Gehry. O culto a celebridades como ele e Santiago Calatrava não seria prejudicial à arquitetura.

Não no caso de Frank Gehry, que é melhor que Calatrava. Niemeyer também era uma celebridade e ainda assim fez coisas boas na esfera pública. Foi um bom designer de objetos icônicos.

Niemeyer era de um tempo em que filosofia e arquitetura caminhavam juntas. Há outros casos, como o de Peter Eisenman, que tentou dar forma à filosofia desconstrutivista de Derrida. É possível ainda resgatar o modernismo do limbo?

Estamos distantes do modernismo, que se transformou numa estética, mais do que tudo. Os impulsos utópicos, heroicos, do modernismo não estão mais presentes na arquitetura contemporânea.

A experiência do High Line nas vizinhanças do Chelsea, no lado oeste de Manhattan, surpreendeu o mundo em 2009 com a transformação de uma linha férrea elevada, construída em 1934, num passeio público ecológico, cheio de verde. Seria possível repetir uma experiência com essa em elevados degradados como o Costa e Silva, em São Paulo?

Não posso falar por São Paulo, mas, em Nova York, o que era uma relíquia urbana prestes a ser demolida foi resgatada porque havia uma condição favorável para sua recuperação. O Chelsea virou um lugar da moda com restaurantes elegantes e galerias de arte. Assim, o que era antes um elevado abandonado virou um parque ligado à rua em que, diferentemente dela, você pode andar despreocupado, contemplando os velhos edifícios.

Isso faz lembrar o primeiro mandamento da Bauhaus, “forma segue função”, que o senhor diz não significar muito hoje. Os herdeiros do modernismo bauhausiano morreram ou o escritor Tom Wolfe estava certo ao dizer que essa é uma herança maldita?

Forma segue função é um slogan que pode ser mal-entendido, pois diferentes formas podem servir a uma mesma função. Obviamente, há mentes simplórias como as de Tom Wolfe, que não conseguem perceber a beleza dos edifícios produzidos pela Bauhaus. Quando falamos sobre função, é importante considerar a questão ética que está sendo colocada em segundo plano todas as vezes em que se discute a forma, mas não a quem e para que servem as edificações que erguemos.

A RELEVÂNCIA DA ARQUITETURA
Autor: Paul Goldberger
Tradução: Roberto Grey
Editora: Bei (296 págs., R$ 50)