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Bancos indígenas brasileiros – Coleção BEĨ

31/07/2015

01-R1

 

 

Design e símbolo

Claudia Moreira Salles

Designer

 

Função, ergonomia, forma e tecnologia são questões inerentes ao design. O conjunto de bancos indígenas da Coleção BEĨ provoca a reflexão sobre os limites tênues e por vezes subjetivos desses conceitos. Quando se pensa no ato de sentar, a primeira associação é com a busca do conforto. É a função essencial dessa postura que permite relaxar os músculos e descansar da posição ereta. Ao vermos imagens de um escriba egípcio de pernas cruzadas ou de um candango de cócoras, percebemos que cada cultura estabelece códigos diferentes para o sentar, e o conforto passa a ser uma noção subjetiva. Os assentos criados pelos diversos povos indígenas não têm encosto, são baixos e individuais. No entanto, não havia nenhum limitador para que os índios colocassem apoios para as costas ou aumentassem sua altura. Os bancos foram concebidos de acordo com o que lhes parecia necessário.

As superfícies dos assentos são, na grande maioria, arredondadas. Em alguns exemplares, a curvatura nos dois sentidos traz um conforto adicional. Acredito que houve uma intenção nesse sentido, não apenas o acompanhamento da forma do tronco de madeira. Cantos vivos são desagradáveis no contato com o corpo. Os bancos têm inspiração na natureza e nela não existem ângulos retos.  Os assentos indígenas ampliam o conceito de função para outra dimensão: a simbólica. Os bancos têm uma função sagrada e um papel importante nos rituais como veículos de transformação e transporte para outros estados da mente e da alma.

A maior parte é zoomórfica e cada animal carrega sua simbologia. As aves, por exemplo, levam para longe, para o mundo sobrenatural; a onça remete à força. Os indígenas acreditam que as pernas flexionadas, com os joelhos apontados para cima,  propiciam o contato entre a terra e o céu – talvez uma explicação para a pouca altura dos assentos (ou talvez, nesse universo mágico, não caiba buscar explicações). Para os índios, sentar em bancos é, quase sempre, uma prerrogativa masculina e seu uso indica a hierarquia entre os indivíduos. Há grande diversidade nas estilizações dos animais e nas pinturas decorativas usadas por certos povos.

A necessidade de fazer diferente é inerente a quem cria; o artesão quer deixar sua marca. O material, como não poderia deixar de ser para o povo que vive cercado de floresta, é a madeira. O esmero nas curvas e nos acabamentos atesta a alta qualidade dos artesãos. O racionalismo do século xx repudiou o aspecto simbólico dos objetos, privilegiando a tecnologia e a verdade dos materiais. Só a partir dos anos 1980 a reação pós–moderna provocou o renascimento da linguagem simbólica e decorativa dos objetos, aproximando design e arte. Na produção indígena, a simplicidade e a busca da forma espiritual emocionam nessas duas dimensões. Forma e função, crença e arte: uma só intenção, um só desígnio.