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Resenha de “Dona Brazi”, por Nina Horta

05/02/2014

Uhmmm, que formiga ardosa!!!!!*

POR NINA HORTA

 

De vez em quando um livro me foge em meio às pilhas novas, principalmente quando se acumulam, loucas, no Natal.

Acabei de ler agora com o maior prazer um texto MUITO bem escrito da Maria da Paz Treffaut sobre a Dona Brazi, acho que a cozinheira que nos ensinou a comer formigas. Pelo menos foi no restaurante da Mara Salles, com comida feita pela D Brazi que papei minha primeira formiguinha com gosto de capim santo.

É aquela história antiga, “ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

Pelo jeito nós é que vamos comer as saúvas, quem diria!

Voltando ao livro “Dona Brazi” cozinha tradicional amazônica, da editora Bei, é bilíngue, inglês e português e fácil de ler, um texto sem firulas, simples e relatando, muito bem, a semana que Maria da Paz passou com Dona Brazi. Uma semana é pouco tempo, mas o livro nos dá um retrato muito fiel da casa, da dona da casa, parece que estamos ali, junto, compartilhando daquela comida que nem muito amazônica nos parece, e vamos nos acostumando a ela, lendo e vendo e quase comendo.

Juntinho da Dona Brazi, sabendo dela e de suas comidas, sem precisar aguentar o calorão. Fotos boas, acho que os gringos também vão gostar, imagine servir em casa Tiger catfish cascade! Cascata de peixe com farofa.

Se o Atala conseguir que os estrangeiros gostem de farofa, eu que já sou rendida à sua comida, serei sua serva humilde para o resto da vida. Não sabem o que perdem por não gostar de farofa. E os que ficam morando aqui se apaixonam, adoram, logo a façanha não é coisa impossível.

Dona Brazi usa leite condensado,já viram, né, não é uma índia de quatro costados que vive no mato e não sabe das novidades. É uma mulher da cidade que teve a sorte de ter mãe índia.Sabe fazer flan de cupuaçu, lombo suíno ao molho de mandioca, tem seus fornecedores de formiga, já não se dá ao trabalho de ir buscar. Mas, adora repórteres e fotógrafos, sabe da importância do marketing e entra na floresta de foice, se precisar, para tirar fotos caçando as bichinhas.

Leiam o livro. É pequeno, curtido, um retrato muito bem feito dessa cozinheira que trouxeram para brilhar na cidade. Um pedacinho da história da comida brasileira. É assim, com personagens pequenos e não tão importantes, até comedores de formiga, que se faz a história.

Acho só engraçado pensar em um estrangeiro chegando aqui em São Paulo, tomando seu banho, indo para o restaurante do hotel e pedindo um prato de saúvas. Quem vai entender? Ninguém. Vai precisar abrir a geladeira da D Brazi, onde ela guarda as formigas em saquinhos de plástico, para conseguir acabar com as saúvas do Brazil. Ah, e ela só gosta das “ardosas”, que ardem como pimenta. Devem ser melhores mesmo, e não vejo o dia em que vamos ter no meio daqueles ingredientes todos que guardamos, da Turquia, da China, do Japão, uma latinha de formigas defumadas. A marca é Dona Brazi do Brazil.

E parabéns, Maria da Paz Treffaut, trata de escrever outro livro para podermos aproveitar do seu olhar tão perspicaz e da sua pena inteligente e verdadeira. E como é seu apelido mesmo?

Texto publicado no blog de Nina Horta, no jornal Folha de S.Paulo, de 3/2/2014

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