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O futuro do Tietê: entre a descrença e a esperança

27/01/2012

Autor:  Carlos Tramontina*

 

“Você acredita mesmo que o Tietê pode ficar limpo um dia?” Essa é a pergunta que mais ouço nas ruas desde o lançamento de “Tietê – presente e futuro”, livro em que, apoiado numa série de reportagens especiais que realizamos na TV Globo de São Paulo, discuto o futuro do rio. A incredulidade da população é absolutamente natural diante do cenário vergonhoso que o rio representa não só para os moradores, mas também para os visitantes que visitam nossa cidade.

Foi assim desde sempre. Em 1898, um documento publicado pela Revista Médica de São Paulo já alertava os moradores da capital em relação às péssimas condições da água do rio: “recebe águas servidas, dejetos de homens e animais, nas margens encontram-se lavadeiras e tudo isso coloca a água deste rio em condições perigosas”. A agressão ao rio podia ser notada muito antes de São Paulo se tornar uma cidade importante.

O contato com o rio ocorreu bem cedo na minha vida, bem antes de passar pela minha cabeça a ideia de ser jornalista. Ainda criança, eu passeava com meus pais nos fins de semana em Panorama (interior de São Paulo), perto de onde o Tietê desemboca no rio Paraná, formando uma gigantesca massa de água. Ali eu brincava com meu irmão, assim como faziam os moradores da região. Poucos anos depois, já com dez anos de idade, li Três garotos em férias no rio Tietê, de Francisco de Barros Júnior, que conta a aventura de um tio que desce o Tietê num bote, acampando e ensinando os sobrinhos a respeitar e proteger a natureza. Nunca me desfiz do livro e o guardo até hoje como um troféu.

Mas tudo isso ocorreu bem longe da capital. Quando cheguei à metrópole para estudar jornalismo descobri outro Tietê, muito diferente do meu: sujo, malcheiroso e agredido. A capital trata mal o seu rio mais importante há mais de um século. Em 1903, cinco anos depois daquele relatório dos médicos sugerindo cuidado com a água contaminada do Tietê, o fiscal de rios do município, José Joaquim de Freitas, pediu providências ao governador contra as descargas de esgotos no rio. Ele chegou ao extremo de calcular o volume de fezes que os 286 mil habitantes da cidade lançavam no rio todos os dias.

Demoramos, mas acordamos. O rio Tietê continua imundo, uma vergonha para a quarta maior cidade do mundo. Está ruim, mas já foi pior. Hoje ele ainda recebe mais de 1,7 bilhão de litros de esgoto por dia, mas graças aos investimentos em saneamento 1 bilhão de litros já são tratados. Isso não é uma “dádiva divina”. Foi fruto de pressão da sociedade e das ONGs, e de uma mudança na mentalidade da sociedade.

O rio Sena, em Paris, foi despoluído. O mesmo aconteceu com o Tâmisa, em Londres. Por que não vai acontecer aqui? O caminho da população é pressionar, cobrar as autoridades, exigir os investimentos em saneamento. Ao mesmo tempo ela deve ter uma nova atitude: não só proteger o rio, como também evitar que mais sujeira seja lançada nas ruas e acabe naturalmente no leito do Tietê ou de outro rio da cidade.

Eu sou otimista. Sei que os investimentos nessa área são vultosos e as obras, demoradas. Mas penso que ainda terei a alegria de ver o rio da minha cidade limpo, sem cheiro, correndo para o interior. Então, com prazer, reescreveremos sua história.

 

* Carlos Tramontina é âncora do SPTV Segunda Edição e autor de Tietê: Presente e futuro, publicado pela BEI

 

 

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A arte de ouvir

24/01/2012

Autor: Benjamim Taubkin*

Minha vida musical começou mais por desinteresse em relação aos possíveis caminhos profissionais que a escola e o meu meio de classe média alta me apontavam do que por uma vocação manifestada na infância.

Minha primeira relação profissional com a música se deu como produtor, quando, com 17 anos, comecei a organizar concertos com grupos de música brasileira, especialmente instrumental. Por uma conjunção de fatores – entre os quais a sorte –, aos 20 anos já dirigia três séries de música dentro da secretaria estadual de cultura.

Ao mesmo tempo comecei a olhar seriamente para o piano. Havia sido definitivamente despertado para este instrumento quando passei a ouvir musica brasileira – especialmente Tom Jobim, no disco Matita-Perê, Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal. Decidido a levar este impulso a sério, procurei professores na área da música erudita. Para minha surpresa e decepção nenhum deles me levou a sério, achando que eu já estava com a idade avançada para iniciar no instrumento. Quando busquei na área do jazz, a situação piorou: o suposto professor me deu um “teste de talento”!

Assim, por conta própria mergulhei no instrumento, tratando de buscar os sons e especialmente os acordes que eu ouvia naqueles discos de que tanto gostava. Decidi abandonar a produção e me dedicar integralmente à vida como músico; criei para mim mesmo a necessidade de sobreviver como instrumentista, impregnado de um romantismo e de um certo senso de aventura.

Desde então, há 30 anos venho buscando seguir aquilo que me parece um caminho criativo. A cada momento percebo que uma etapa foi percorrida e uma nova se abre. Quando começamos o Núcleo Contemporâneo – e desde então infinitas viagens pelo Brasil e pelo mundo encontrando músicos, culturas e novas experiências –não pensei que fosse tão longe.

Depois de todos estes anos, o que ficou foi que o que vale mais é ouvir aquela voz interna que convida à aventura, a descoberta de si mesmo e da vida.

 

* Benjamim Taubkin é instrumentista, arranjador, compositor, produtor e diretor da gravadora e produtora Núcleo Contemporâneo

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Alex Vallauri: visionário e pioneiro

19/01/2012

Baixo Ribeiro

Um dia, na casa do amigo Maurício Vilaça, começamos a conversar sobre o Vallauri, que já havia falecido, e sobre as perspectivas da arte urbana para os anos que viriam a – era 1987 ou 1988. Apesar da aids e de todos os remédios que o Maurício tomava, a sua cabeça estava a mil; ele era um cara hiperativo. Na época, estávamos trabalhando juntos numa ópera pop que misturava personagens trash e ordinários a clássicos de todo o tipo, de Batman a Mozart, passando, claro pela Rainha do frango assado, de Vallauri.

O trabalho colaborativo era o que rolava então. (Já que grana não rolava mesmo! Entre planos econômicos absurdos, as produções artísticas de vanguarda tinham que ser feitas totalmente sem recursos.) E muito do que eu aprendi sobre parceria fundamentou-se naquele tempo. Voltando à conversa sobre o Vallauri: ela girava em torno exatamente do espírito colaborativo entre artistas, sobre a autoria da obra de arte, a arte livre no espaço público, a urbanidade e suas novas demandas e de como todas essas questões influenciariam o futuro da arte no Brasil e no mundo. Tínhamos certeza de que a arte que nascia nas ruas cresceria e seria muito mais popular, mais colaborativa e muito mais presente na vida da garotada que tava começando.

Infelizmente Vilaça não ficou muito mais tempo entre nós para ver com os próprios olhos que a cena do graffiti e da street art cresceria mesmo, como havíamos previsto naquelas conversas. Deixo aqui um brinde (tim-tim) tanto ao Vilaça quanto ao Vallauri, que, visionários e pioneiros, sabiam exatamente o que estavam fazendo e o faziam “por amor à causa”!

*Baixo Ribeiro é fundador da galeria Choque Cultural

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